03 maio 2017

Resenha - Tudo o que nunca contei, Celeste Ng


Livro: Tudo o que nunca contei
Autor(a): Celeste Ng
Editora: Intrínseca
Páginas: 304
Adquira: Saraiva | Submarino
Livro cedido através da parceria com a editora
Na manhã de um dia de primavera de 1977, Lydia Lee não aparece para tomar café. Mais tarde, seu corpo é encontrado em um lago de uma cidade em que ela e sua família sino-americana nunca se adaptaram muito bem. Quem ou o que fez com que Lydia — uma estudante promissora de 16 anos, adorada pelos pais e que com frequência podia ser ouvida conversando alegremente ao telefone — fugisse de casa e se aventurasse em um bote tarde da noite, mesmo tendo pavor de água e sem saber nadar? À medida que a polícia tenta desvendar o caso do desaparecimento, os familiares de Lydia descobrem que mal a conheciam. E a resposta surpreendente também está muito abaixo da superfície. Conforme analisa e expõe os segredos da família Lee — os sonhos que deram lugar às decepções, as inseguranças omitidas, as traições e os arrependimentos —, Celeste Ng desenvolve um romance sobre as diversas formas com que pais, filhos e irmãos podem falhar em compreender uns aos outros e talvez até a si mesmos. Uma uma observação precisa e dolorosa do fardo que as expectativas da família representam e da necessidade de pertencimento. Um romance que explora isolamento, sucesso, questões de raça, gênero, família e identidade e permanece com o leitor bem depois de virada a última página.

Tudo o que nunca contei conta a história da família Lee, uma família nada convencional para a década de 70 e considerada inadequada devido ao casamento de um chinês com uma americana. É claro que essa discriminação não impediu Marilyn de se apaixonar e constituir família com o oriental James, contudo ela nem imaginava as dificuldades que precisaria enfrentar para manter-se ao lado do marido.
Marilyn era estudante de medicina, local onde conheceu James e viu sua história mudar. Seu plano era se formar e seguir carreira, algo que possivelmente seria conciliado com seu casamento, no entanto uma gravidez precipitada adiou completamente sua trajetória.

Anos depois com três filhos que fisicamente não se encaixam aos padrões americanos, Marilyn começa a repensar algumas decisões do passado, no entanto como não se pode voltar atrás, ela e o marido reúnem suas energias e convicções em Lydia, a filha do meio que diferente dos irmãos nasceu com olhos azuis como os da mãe americana. A partir daí Lydia cresce bombardeada de sonhos e expectativas geradas pelos pais, a mãe acredita que a filha será capaz tornar-se uma grande médica, enquanto o pai acredita que a aparência da adolescente será a chave para seu entrosamento e popularidade junto aos colegas, Lydia será aceita e tratada como igual, mesmo possuindo origem mestiça.
Descobri que não estou feliz com minha vida. Sempre tive em mente um tipo de vida, e as coisas acabaram acontecendo de um jeito muito diferente.
Contudo certa manhã Lydia não aparece para o habitual café da manhã, sendo encontrada dias depois morta em um lago próximo a residência da família, teria ela sido assassinada ou simplesmente teria cometido suicídio? Mas teria Lydia motivos para se matar sendo tão amada e querida pelos pais? São essas perguntas que permeiam a história do livro escrito por Celeste Ng, e é adentrando nos segredos e rotinas da família Lee que iremos encontrar respostas para esse lamentável acontecimento.

Quando iniciei a leitura desse livro imaginei que iria tão somente mergulhar nas convicções que poderiam ter levado Lydia ao suicídio ou a ser assassinada, porém o que encontramos aqui é muito mais do que uma história de morte, é uma história de erros sucessivos.

A família Lee é o verdadeiro exemplo de família desajustada e massacrada pelo preconceito, é aquele tipo de família onde todos deveriam ser encaminhados para uma terapia em grupo, começando pelos pais que visivelmente são o pivô do grande problema. Marilyn e James carregam magoa e culpa relacionado ao que sofreram no passado, e sem perceber agem em prol dos julgamentos sociais ainda existentes para lidar com os filhos.

É o rosto de Lydia, embora não admita, que Marilyn gostaria de ver por último – não o de Nath, o de Hannah, nem mesmo o de James, é no da filha que pensa primeiro e sempre.  

Exemplo disso é o tratamento dado a Nath, o filho primogênito que mesmo inteligente e esforçado, continua sem reconhecimento e sem importância para os pais, que possuem olhos e planos apenas para Lydia. Outro exemplo é a caçula Hannah que desde pequena aprendeu a se contentar com o mínimo de atenção recebida, ela é uma criança negligenciada e sente-se esquecida da mesma forma que os objetos deixados em seu quartinho no sótão. Enquanto os irmãos recebem apenas migalhas da atenção dos pais, Lydia é sufocada com atenção em excesso e expectativas de sonhos que nunca foram e nunca serão os seus.

Tudo o que nunca contei é um verdadeiro retrato da falta de comunicação, compreensão e afeto no lar. Poderia dizer que é um drama da vida real com pessoas insatisfeitas e preocupadas apenas com suas próprias convicções, incapazes de olhar em volta, recomeçar ou fazer da realidade um suporte para almejar melhorias.

Indico o livro para leitores que procuram uma leitura mais densa e reflexiva voltada para o conceito familiar.   

11 comentários

  1. Glaucia!
    Gosto dos livros que trazem essa reflexão sobre o núcleo famliar, justamente porque é uma realidade bem próxima a nossa, que podemos acompanhar no cotidiano de muitas famílias, onde alguns filhos, são preteridos em relação a outro que por algum motivo, os pais acham que serão mais bem sucedidos em sua jornada.
    Grande erro dos pais, né? E no livro é ainda mais grave, porque os motivos estão relacionados a preconceito.
    Gostaria de poder ler.
    Desejo um mês abençoado!
    “Muitas palavras não indicam necessariamente muita sabedoria.” (Tales de Mileto)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP COMENTARISTA MAIO 3 livros, 3 ganhadores, participem!

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  2. Puxa, não conhecia o livro, mas o tema me agrada muito. Essas relações familiares sempre trazem uma carga emocional muito grande, ainda mais quando a família já sofre pelo preconceito estabelecido e por essa separação que os pais sempre negam que existam...rs
    E essa mistura aliada a um crime ou não, consegue ainda ficar bem melhor!!!
    Lerei se tiver oportunidade!
    Beijo

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  3. Interessante o livro, nos faz abrir os olhos em relação a família, pois existem muitos pais assim como os dos personagens, que preferem escolher e decidir pelos filhos e não deixam eles se decidirem sozinhos, acho que a Lydia se sentiu sufocada com isso e até frustrada pelos pais não darem atenção aos outros filhos, ficaram tão preocupados com o preconceito que nem se deram conta como isso estava afetando os filhos.

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  4. Nossa, primeiro devo dizer que fiquei apaixonada por esse livro pela capa! Que capa mais, sei lá "quero esse livro". Em segundo, sua resenha ficou top! Esses temas de família em conjunto com suicídio (ou não né haha) são sempre temas que fazem livros bem, beeeem pesados. Já li livros assim e confesso que tive uma boa ressaca literária por conta deles. E não só de não conseguir ler outros livros, mas de não tirar as coisas que foram ditas da cabeça. São livros que requerem muito pensamento e muito entendimento, mas principalmente "o que vale a pena levar pra minha vida do que foi contado aqui?". Acho que dificuldades toda família tem, mas esse preconceito e essa necessidade de exigir tanto dos filhos acaba atrapalhando e no final é apenas um ego dos pais falando alto demais...

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  5. Também ainda não conhecia essa obra, e por isso me surpreendi e muito com o conteúdo abordado, pelo fato de retratar uma família que em um primeiro momento me pareceu ser super perfeita, porém exitem muitos problemas. Vejo que os familiares não mantem um vínculo desconhecendo uns aos outros, o que fez com que a personagem entrassem em uma enrascada. Enfim, quero muito esse livro, tenho certeza que vou amar a leitura.

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  6. Gostei muito da sinopse desse livro e parece que a história consegue fazer a gente pensar. Aborda temas familiares tão comuns do dia a dia, tem tanta família por aí que é desajustada, que a gente conhece mas nem sabe a extensão de tudo...
    Também achei interessante por poder falar de algumas coisas que a gente mesmo vai se identificar, que vai ficar pensando depois se não existe com a gente...como um alerta para prestar mais atenção. Saber os motivos da garota dá pra ter uma ideia de como cada uma daquelas coisas afetou a decisão dela. Gosto de livros nesse estilo e acho que iria gostar desse também.

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  7. Que capa mais linda dele. Nunca tinha visto ele nas redes sociais.
    Devo dizer que adorei a resenha e fiquei super curiosa para ler. Devia ser mesmo chato antigamente uma americana se casar com um estrangeiro e seus filhos não se encacharem na escola e etc.

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  8. Oi Glaucia,
    Estava curiosa para ler uma resenha desse livro, pois fiquei completamente interessada pela sinopse. Amo livros com drama familiar, geralmente trazem histórias que abordam temas que merecem atenção e que trazem uma carga reflexiva densa.
    Pelo jeito essa família é bem desestruturada e dolorosamente real, refletindo o cotidiano de muitas famílias por ai, que lutam para se ajustarem, com pais inseguros que não sabem lidar bem com as diferenças dos filhos. Fiquei intrigada para conhecer o real motivo da morte da Lydia.
    Beijos

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  9. Olá,
    Gostei muito da trama do livro sendo em volta de um clima familiar, fiquei curiosa pela morte da menina, realmente será que foi suicidio?! fiquei com essa duvida sobre ela, e algo não gostei muito foi dos pais deixarem os outros dois de lado, acho isso muito errado porque ele ficam com aquele sentimento de solidão!
    Eu gostei de ler esse livro sim!

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  10. Que Blogada!!!

    Espero você no Blog Tatuando Palavras o pretinho básico da literatura.

    Beijooo

    Helena Buarque

    http://www.euamocuritiba.com.br/tatuando-palavras/

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  11. Oi, não sei por que mas apesar de sempre ler resenhas ótimas sobre esse livro e nunca chamou a minha atenção, talvez seja pela capa, eu tenha a mania de considerar o livro pela capa, estou tentando mudar isso. Por enquanto não pretendo ler,mesmo assim obrigado pela dica.

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